quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Virgem do Caminho

O Céu carinhosamente prepara a vinda do Filho de Deus!

Ouvindo atentamente o relato do Evangelho (Lc 1, 26-38), duas expressões da saudação do Anjo Chama-nos a atenção: Gabriel chama Maria de "cheia de graça" e lhe diz "o Senhor é contigo".

O termo grego, kecharistomene, demonstra-nos bem o significado dessa palavra que, literalmente, significa "aquela que foi agraciada", que foi perpassada pela graça. Da palavra graça, charis em grego, deriva o termo charme, ou seja, a beleza exterior e, principalmente, a beleza interior, o estado da alma que está repleta do amor, da amizade com Deus. Ou seja, tudo aquilo que se havia rompido com o pecado original, cujo relato no Livro do Gênesis acabamos de ler na primeira leitura. Isto significa que Maria é a criatura humana que Deus redimiu de modo pleno, radical e perfeito. Sua Imaculada Conceição (concepção) é obra do Redentor, que nela oferece a todos os homens a imagem e o modelo ao qual somos chamados a ser.

Gabriel também lhe diz: "O Senhor é contigo." Esta expressão, tão recorrente no Antigo Testamento, e usada para o Povo de Israel que, no entanto, muitas vezes foi infiel ao seu Senhor, alcança significado pleno em Maria. É como se o Anjo dissesse: Tu, Maria, és sempre com o Senhor. Tu és unida a Ele tanto quanto é possível a uma criatura. Não se trata de um momento particular, mas de uma união sempre mais profunda que se manifesta de modo único e total na maternidade divina. Nunca nenhuma criatura esteve ou estará unida a Deus como aquela que gerou em seu seio o Autor da vida, Aquele que, sendo seu Filho, a quis chamar por Mãe. Em Maria, Deus realmente demonstrou o poder de Seu braço, exaltando a mais humilde criatura.

Estátua da Virgem Maria na Catedral de Nevers, França.

É por isso que, ao ouvir as palavras do Anjo, "Maria fica perturbada". Não se trata do medo de Adão que, ouvindo os passos de Deus se esconde, consciente do seu pecado. A Virgem, ao contrário, é tomada do santo temor diante da onipotência de Deus. Frente à misteriosa realidade divina, Maria sente todo o seu ser invadido pelo mistério, reconhecendo a desproporção entre a própria pequenez e a grandeza infinita de Deus.

Em um memorável sermão da festa de hoje, São Bernardo fala deste momento em que toda a Criação espera ansiosamente a resposta de Maria. O universo inteiro parece que se cala, reverente e perplexo diante daquela cena em que se trava o momento decisivo para a Criação, que espera como que em dores de parto a vinda do Redentor. O sim de Maria será o eco perfeito e fiel ao "Eis que venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade". Já se pode ouvir o sim incondicional do Senhor que, no Jardim das Oliveiras, servirá como antídoto contra a serpente que, no Jardim do Éden, levou o Homem à desobediência: "Sim, Pai, que a Tua vontade seja feita." No encontro entre essas duas obediências, a de Maria e a de Jesus, realiza-se o plano da Salvação.


Fontes:

Folheto "A Missa", 08/12/09 - Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

"O nascimento de Jesus é anunciado" (Lc 1, 26-38)

Nada mais belo do que encontrar no início desta caminhada para o Natal esta festa de Nossa Senhora; e, precisamente, comemorando a sua Imaculada Conceição: esse mar de santidade com que Deus a envolveu, para fazê-Ia digna de ser a Mãe do Deus-Homem, o divino Salvador. Ela se apresenta, assim, como a aurora puríssima, anunciando a chegada do Sol divino que o Natal vai fazer resplandecer aos olhos do nosso coração. Ela é a serena Estrela da Manhã, anunciando o dia do Cristianismo. E somos convidados a saudá-Ia com as carinhosas palavras da liturgia: “toda formosa, Maria - Maria, tu és toda bela, e em ti não existe a mancha do pecado original”.

O maravilhoso escritor italiano Monsenhor Olgiati conta que houve no seu tempo um eclipse total do sol que atingiu o Norte da Itália. Mas, quem olhasse da planície de Milão na direção dos Alpes, veria o cimo do monte Rosa resplandecendo à luz do sol. Candidíssimo! Sobretudo pelo contraste, livre como ele ficara do cone de sombra que envolvia toda a região. O próprio escritor fez a espontânea comparação. Esse monte iluminado pela luz do sol no meio da escuridão do eclipse é bem uma figura de Maria, resplandecente de graça no meio da sombra total do pecado original que envolveu toda a humanidade.

Todo ser humano, desde o primeiro momento de sua concepção no seio materno, traz a marca do pecado. É a triste herança do pecado do primeiro homem - o pecado original. Desse pecado nasce também a inclinação para o mal - a “concupiscência” - força negativa que mora dentro de nós e que nos obriga a uma cuidadosa vigilância e a um frequente recurso à oração, para não cairmos no pecado. Pela sua conceição imaculada, Maria foi isenta do pecado original e da concupiscência. Teve aquilo que a teologia chama de dom da “integridade”. É a toda pura.

O dogma da Imaculada Conceição não foi proclamado logo nos primeiros séculos. Homens sábios e santos, como São João Crisóstomo, por exemplo, admitiam alguma imperfeição moral em Maria. Porém, como que por um divino instinto, já vários escritores, como Santo Agostinho e Santo Efrém, excluíam Maria de qualquer compromisso com o pecado. Em todo o primeiro milênio não aparecem testemunhos explícitos a favor do dogma da Imaculada como o professamos.

No século XIII, século glorioso da Teologia, houve grandes teólogos, como São Bernardo e Santo Tomás de Aquino, que não admitiam que Maria tivesse sido isenta do pecado. Senão - segundo o pensamento deles - Ela não teria sido objeto da redenção trazida por Cristo. E as opiniões se dividiam. Foi quando apareceu o grande teólogo franciscano João Duns Scoto, que abriu um novo caminho para a teologia mariana neste campo.

Ele mostrou como a redenção de Cristo pode ser aplicada de dois modos: nos homens em geral, ela é a redenção “Iiberativa”, isto é, que liberta o homem do pecado por ele contraído; em Maria, ela foi a redenção “preservativa”, isto é, que impediu que Maria contraísse o pecado. Foi aquilo que Santa Teresinha disse numa mimosa comparação: Deus agiu com Maria como um pai, que não apenas levanta a filha que tropeçou numa pedra do caminho e caiu, mas correu na frente e retirou a pedra para que ela não caísse.

E a persuasão de que Maria foi isenta do pecado original foi crescendo na Igreja entre os pastores e os fiéis, a ponto de que o Concílio Tridentino - século XVI- ao promulgar o decreto sobre o pecado original, declarou solenemente que não pretendia incluir nessa declaração de pecado a Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus. Porém, foi só em 1854, depois de ouvir os Bispos de toda a Igreja, que o Papa Pio IX, pela bula “Ineffabilis Deus”, promulgou como dogma que a Igreja inteira deve professar, essa sublime verdade que a Bem-aventurada Virgem Maria, desde o primeiro instante de sua conceição, pelos méritos de Cristo Redentor, foi preservada imune do pecado original.

E é isso que o povo cristão celebra com filial alegria, cantando os louvores da Mãe Santíssima. Ela é a toda pura. Ela é a toda bela. Ela é a bendita entre todas as mulheres. Ela é a glória de nosso povo.

Pai, plenifica-me com tua graça, como fizeste com Maria, de forma que eu possa ser fiel como ela ao teu desígnio de salvação para a humanidade.

Padre Bantu Mendonça K. Sayla

08 de Dezembro de 2009


Fontes: