quinta-feira, 24 de agosto de 2023

A Bíblia aberta de Marc Chagall - Chagall e a Religião

No Século XX, quando a maior parte dos artistas ocidentais deixam de pintar as passagens bíblicas rompendo com a rica herança dos grandes mestres, Marc Chagall, criado na cultura yiddish, se apaixona por esta tarefa. Sem se preocupar com a Lei Mosaica que proíbe na tradição judaica a representação da figura humana em assuntos religiosos. O menino russo de Vitebsk, exilado em Paris, mostra uma grande liberdade tanto para inventar figuras pertencentes ao ecumenismo, quanto para dirigir ao mundo uma mensagem de paz.

Marc Chagall nasce em 1887 em Vitebsk, na Bielorússia, numa família judia humilde, religiosa e muito ligada ao folclore. Nessa época, a cidade possui uma importante comunidade judaica. A mãe de Chagall tem uma mercearia e seu pai vai todas as manhãs à sinagoga, onde é empregado, enquanto que ali seu avô é preceptor e chantre. O jovem pintor é criado na paz e ternura de sua mãe, judia, que lhe ensina a ler e a amar a Bíblia e os Homens. Chagall entra para a Escola de Belas Artes em São Petersburgo, partindo depois rumo a Paris em 1910. Quatro anos mais tarde, ele pensa em voltar a Vitebsk para uma curta visita, mas a Primeira Guerra Mundial o impede de voltar a Paris. Durante este período, Chagall pinta sobretudo a vida da comunidade judaica, que é perseguida pois é considerada pelo Estado Maior Russo como suspeita de espionagem. A família de Chagall oferece hospitalidade a inúmeros judeus expulsos, especialmente os vindos da fronteira com a Lituânia. Em 1920, ele se instala em Moscou, trabalhando em suas pinturas murais e na decoração do “teatro judaico”. Após um pedido de Ambroise Vollard, célebre marchand e editor de livros de artistas da vanguarda, Marc Chagall inicia uma série de ilustrações sobre a Bíblia em 1930. Este trabalho monumental lhe permitirá interpretar pessoalmente esses textos sagrados, que ele define como “a maior fonte de poesia de todos os tempos”.

Pouco depois de confirmar o pedido de Vollard, Chagall viaja até a Palestina e descobre uma nova maneira de representar os personagens bíblicos: sem a menor idealização, as silhuetas são rígidas, carregadas do peso do destino, de aspecto simples e despojado, como repletas de espiritualidade. Aliás, Chagall realiza ali um conjunto de pinturas que chamará mais tarde de “notas” representativas das paisagens palestinas, como a representação do Muro das Lamentações em sua tela “Jerusalém”. Paralelamente, ele pinta cerca de quarenta guaches preparatórios antes de começar, no ano seguinte, a realização de uma série de águas-fortes destinadas aos livros do Gênesis e do Êxodo. Assim, 105 gravuras mostram diversas cenas-chave do Antigo Testamento, onde profetas, patriarcas, guerreiros e reis são os personagens principais.

Em 1939, quando Vollard morre, Chagall interrompe suas ilustrações para a Bíblia, e só as retomará em 1952, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Quando a ideologia nazista e o antissemitismo se espalharam pela Alemanha na década de 1930, Chagall percebeu os perigos que ameaçavam seu povo e a Europa como um todo. Esta época marcante aos olhos do pintor está refletida em suas telas, como A Crucifixão Branca, de 1938, telas em que Chagall faz um link entre a perseguição de Jesus e a que os judeus sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. As últimas ilustrações bíblicas que ele realiza após a Guerra (A Tomada de Jerusalém, As Lamentações de Jeremias etc.) testemunham igualmente o indizível sofrimento do povo judeu. Em algumas de suas gravuras, como Crucificação em Amarelo (1942-1943), A Queda do Anjo (1923-1947), ou O Êxodo (1952-1966), Chagall mistura motivos cristãos (a presença de Jesus) e judaicos (judeu errante, Torá etc.). Através deste casamento original, o artista quis transmitir uma mensagem de paz inter-religiosa, mas também entre as religiões e as nações, após os horrores que marcaram a História. 

Em 1954 Chagall inicia uma série de 17 quadros que comporão a Mensagem Bíblica. Para realizar estes últimos, o pintor se inspira no Antigo Testamento, que ele interpreta à sua maneira, às vezes transgredindo o texto de referência. Os doze primeiros quadros constituem um ciclo: seus temas são episódios que se desenvolvem no tempo cronológico da narrativa bíblica. Ele termina este trabalho em 1966 e o doa ao Estado, que expõe as obras no Musée National Marc Chagall (Museu Nacional Marc Chagall) em Nice, inaugurado em 1973. Este museu nasceu da vontade do artista de reunir num único lugar, construído para este fim, seu mais importante trabalho pessoal sobre a Bíblia. Nos anos 1950, e até o fim de sua vida, Chagall recebeu inúmeras encomendas de decorações e vitrais de lugares de culto católico, protestante ou judaico (judeu). Com a convicção de que, enquanto artista, ele pode e deve enviar uma mensagem de paz entre as nações e as religiões, Chagall se sente confortável para navegar livre de correntes entre crenças e religiões, participando da renovação das artes sacras. Realiza vitrais para a Catedral de Metz (1960), em que evoca o Antigo Testamento; na Catedral de Reims, evoca os dois Testamentos, bem como os principais momentos da cidade. O último vitral, que é a Árvore de Jessé, representa um esquema da árvore genealógica presumida de Jesus de Nazaré a partir de Jessé, pai do Rei Davi.  Chagall realizou igualmente vitrais para a sinagoga do hospital de Hadassah, em Jerusalém, e As Doze Tribos de Israel (1962). Seus vitrais estão presentes em países do mundo todo, como por exemplo em Israel, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, França e Suíça. Desde então, as obras monumentais (vitrais, mosaicos, tapeçarias, pinturas murais etc.) se multiplicam: das pinturas murais para o Metropolitan Opera de New York aos vitrais para a igreja de Fraumünster de Zurich. Alguns anos mais tarde, Marc Chagall morre em 28 de março de 1985, em Saint-Paul de Vence, deixando um legado bastante diversificado onde, todavia, a religião permanece onipresente. Por sua original obra religiosa, Chagall quis transmitir uma forte mensagem “em nome da liberdade de todas as religiões”. 

CHAGALL E A BÍBLIA 

É a história de uma obra singular. No Século XX, enquanto a maior parte dos artistas ocidentais renunciam a pintar temas bíblicos rompendo com a rica herança dos grandes mestres, Marc Chagall, criado na cultura yiddish, se apaixona por esta missão, sem receio da Lei Mosaica que, na tradição judaica, proíbe a representação da figura humana para fins religiosos. O menino russo de Vitebsk, exilado em Paris emprega, ao contrário, uma grande liberdade, tanto para inventar figuras impregnadas de ecumenismo, quanto para enviar ao mundo uma mensagem de paz. 

“Chagall desarmou as armadilhas do pertencimento”, observa Laurence Sigall, diretora do Museu de Arte e História do Judaísmo, em Paris, que numa apaixonante exposição (1) decifra essas interpretações muito pessoais da Bíblia. 

Desde sua iniciação na Rússia o artista, confrontado com os pogroms (2), escolhe evocar esses dramas por meio de assuntos religiosos, como o Gólgota ou o Êxodo. Todavia a exposição só começa em 1930, quando o marchand parisiense Ambroise Vollard encomenda a Chagall uma centena de águas-fortes para ilustrar a Bíblia que, desde então, ocupa um espaço central em sua obra, que subsistirá à publicação do livro, em 1956, pelo editor de arte Tériade (3). 

Rusticidade naïve 

Para preparar suas gravuras e os contrastes de branco e preto, estranhamente Chagall inicia pela cor. Em cerca de quarenta guaches, dos quais a metade é apresentada na exposição, ele dá asas à sua imaginação. Deus recebe as feições de um anjo barbudo, de uma brancura deslumbrante. Moisés, invocando as pragas que se abaterão sobre o Egito, se parece com um gigante. Transpostas sobre o couro, estas imagens são então refinadas por múltiplos retoques com ponta seca ou polidor, conforme se vê em diversas estampas até a edição final das 105 águas-fortes reunidas juntamente a trechos da Bíblia de Genebra de 1638. 

A série que o museu atualmente expõe é aquela – inédita – que Chagall oferece a sua esposa, Valentina Brodsky, incrementada por guaches em cores vivas. Fiel ao judaísmo, o artista se limita ao Antigo Testamento, sem representar certos episódios, como o Pecado Original ou Caim e Abel. Chagall ama dizer que esses heróis bíblicos o acompanham tanto durante a infância que, para ele, “são como tios e tias”. 

A influência de Rembrandt, de El Greco, ou dos ícones, aflora em determinadas gravuras, conjugando-se com uma rusticidade naïve – personagens um pouco volumosos, gestos deliberadamente simplificados – que Chagall pegou por empréstimo dos artistas da Escola de Arte de Bezalel, em Jerusalém. 

O indizível sofrimento de todo o povo judeu 

A realização dessas águas-fortes também são para Chagall uma aventura espiritual iniciada em 1931 com uma viagem à Palestina. “Aqui, a gente sente que o judaísmo e o cristianismo formam uma só e mesma família. Todos formavam um só, e vieram demônios que destruíram e dividiram tudo”, escreve então Chagall, pensando sobre os eventos que presencia. 

O antissemitismo que ele conheceu quando criança na Rússia ressurgiu na Europa. Após ter obtido a nacionalidade francesa em 1937, o Governo de Vichy a retira de Chagall em 1941, e após isso ele se exila nos Estados Unidos.

Suas ilustrações para a Bíblia, interrompidas em 1939 na ocasião da morte de Vollard, são retomadas somente ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1952, quando Chagall dá às suas últimas pranchas uma tonalidade assombrada pela Shoah. A Tomada de Jerusalém mostra uma cidade em chamas e uma cena do Êxodo repleta de cadáveres, ao passo que As Lamentações de Jeremias remontam ao indizível sofrimento de todo o povo judeu.

 “Um ideal de fraternidade e de amor”

O espectro do Holocausto ressurge em várias grandes telas, como na “Crucificação em amarelo”

(1942-1943), na “Queda do Anjo” (1923-1947), ou no “Êxodo” (1952-1966). Temáticas cristãs e judaicas são misturadas num casamento bastante original. Ao horror e às mágoas da História, o artista responde através de uma mensagem de paz interreligiosa. É neste sentido que, em 1949, ele aceita a oferta do Padre Couturier, que estava nos Unidos, para participar da decoração da igreja do Plateau d’Assy em Haute-Savoie: “Em nome da liberdade de todas as religiões”,  conforme suas palavras. 

Outros vitrais serão realizados para prédios católicos e protestantes na França (especialmente as Catedrais de Reims e Metz), na Alemanha, Suíça, Estados Unidos, sem esquecer aquelas da sinagoga do Hospital Hadassah de Jerusalém em 1960, em que o artista evita toda e qualquer figura humana. 

A série das 17 grandes obras da “Mensagem Bíblica” pintadas entre 1954 e 1967 para capelas abandonadas de Vence (4), onde Matisse acaba de decorar a Capela do Rosário, amplia esta obra de reconciliação. “Eu quis, diz Marc Chagall, que os homens tentem ali encontrar uma certa paz, uma certa religiosidade, um sentido para a vida ( ) um ideal de fraternidade e de amor como meus traços e minhas cores sonharam.” 

Sabine GIGNOUX

 Tradução e Adaptação:

Gisèle do Prado

(1)  À lire, le remarquable catalogue, Skira, 197 p., 35 euros.

(2) Pogrom é uma palavra russa que significa "causar estragos, destruir violentamente". Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no Império Russo como em outros países.

(3) Tériade

(4) Atualmente no Museu Nacional da Mensagem Bíblica Marc Chagall de Nice. 

http://www.sacre-coeur-tourcoing.net/chagall/a-religion.html

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Oração à Santíssima Trindade

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Oremos a Deus Pai
que envie, sobre cada um e cada uma de nós,
o Espírito Santo de Seu Filho Jesus Cristo,
e que Ele se digne nos conceder
a Graça de Seus Dons
a fim de que saibamos reconhecer em nós,
nos outros e na Sua Criação,
através do Tempo e dos Eventos,
Sua presença entre nós,
e que Ele guie nossas realizações quotidianas
no respeito a nós mesmos
e aos nossos próximos,
segundo Seu Mandamento.

Daniel Noel

Tradução:
Gisèle Pimentel

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A Virgem da Medalha Milagrosa


Este ícone foi escrito de acordo com a visão de Irmã Catarina Labouré na Capela da Rue du Bac, em Paris. Nessa visão, Ir. Catarina viu a Virgem Maria em pé, sobre um Globo, tendo aos seus pés uma serpente e raios luminosos saindo de suas mãos. Escutou, então, estas palavras: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós.” A Virgem trazia em suas mãos um globo representando o mundo.

Catarina Labouré nasceu em 02 de maio de 1806 em Fain-lès-Moutiers (França) e morreu em 31 de dezembro de 1876 em Paris. Filha da Caridade, Ir. Catarina contou ao seu confessor sobre as aparições da Virgem Maria ocorridas em julho e novembro de 1830, durante seu noviciado (chamado “seminário” pelas Filhas da Caridade) na capela do convento onde vivia. Este evento deu origem à divulgação e à devoção à Medalha Milagrosa, usada atualmente por milhões de católicos.

Ao seu confessor, Catarina revelou que, na noite de 19 de julho de 1830, dia da festa de São Vicente de Paulo, foi acordada por uma criança que lhe dizia: “Irmã, todo mundo dorme. Venha à capela. A Virgem Santíssima a espera.” Acreditando na voz, Catarina seguiu a criança. Chegando à capela, a noviça viu a Virgem Maria que, numa longa conversa, pediu à jovem vidente que fosse fundada por seu diretor espiritual, Pe. João Maria Aladel, da Congregação da Missão, uma Associação de Filhos e Filhas de Maria, atualmente conhecida como Juventude Mariana Vicentina, responsável pela difusão da Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças apresentada a Catarina nas visões posteriores, que se encerraram em 27 de Novembro de 1830, quando a Virgem se apresentou então como Nossa Senhora das Graças.

Canonisada em 1947 pelo Papa Pio XII, Catarina Labouré é comemorada liturgicamente em 28 de novembro.

Tradução e Adaptação:
Gisèle Pimentel

Fontes:
http://www.letempsduneicone.sitew.fr/Symbolisme_de_l_icone.B.htm#Symbolisme_de_l_icone.B

Noli Me Tangere (Não Me Retenha)


“Maria tinha ficado fora, chorando junto ao túmulo. Enquanto ainda chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. Viu então dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um na cabeceira e outro nos pés. Então os anjos perguntaram: ‘Mulher, por que você está chorando?’ Ela respondeu: ‘Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o colocaram.’

Depois de dizer isso, Maria virou-se e viu Jesus de pé; mas não sabia que era Jesus. E Jesus perguntou: ‘Mulher, por que você está chorando? Quem é que você está procurando?’ Maria pensou que fosse o jardineiro, e disse: ‘Se foi o senhor que levou Jesus, diga-me onde o colocou, e eu irei buscá-lo.’ Então Jesus disse: ‘Maria.’ Ela virou-se e exclamou em hebraico: ‘Rabuni!’ (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: ‘Não me segure, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vá dizer aos meus irmãos: ‘Subo para junto do meu Pai, que é Pai de vocês, do meu Deus, que é o Deus de vocês.’ ’ Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: ‘Eu vi o Senhor.’ E contou o que Jesus tinha dito.” (Jo 20, 11-18)

Noli me tangereest (“Não me toque” ou “Não me retenha”) é a tradução latina das palavras pronunciadas por Jesus Ressuscitado a Maria Madalena (Maria de Magdala) no Domingo de Páscoa.

Tradução e Adaptação:
Gisèle Pimentel

Fonte:
http://www.letempsduneicone.sitew.fr/Symbolisme_de_l_icone.B.htm#Symbolisme_de_l_icone.B

A Virgem do Sinal


Este ícone representa Maria Orante, e mostra a Virgem Maria com as mãos levantadas num gesto de oração. Ela traz o Medalhão da Glória, que contém seu Filho radiante. O ícone da Mãe de Deus do Sinal (em eslavo:
Znamenie), traduz em imagem a profecia de Isaías: “O Senhor vos dará um sinal, a Virgem está grávida e ela dará a luz um Filho, que será chamado Emanuel” (Is 7, 14).

Os missionários bizantinos possuíam este ícone em 1170 e a ele atribuíram a libertação da sua cidade, então sitiada pelo inimigo Suzdal.

Neste ícone, a Virgem e o Menino estão cercados pelos Quatro Evangelistas:
João: a Águia;
Marcos: o Leão;
Mateus: o Homem;
Lucas: o Touro.

Tradução e Adaptação:
Gisèle Pimentel

Fonte:

terça-feira, 5 de setembro de 2017

AS CASULAS DE MATISSE (Casulas e vestes Litúrgicas)

As casulas e vestes litúrgicas concebidas por Matisse estão expostas no Museu Matisse Cateau-Cambrésis.

Cada conjunto litúrgico é composto de vestes e acessórios da mesma cor, englobando uma casula, uma estola e um manípulo utilizados pelo padre. As maquetes foram realizadas por Matisse em papeis cortados pintados a guache.

As seis cores tradicionais utilizadas para os ornamentos sacerdotais mudam segundo os diferentes Tempos Litúrgicos do ano:

•A cor branca é usada nas grandes festas – Natal, Páscoa, Ascensão e festas da Virgem Maria.

Esta casula se destina às principais festas cristãs: Natal, Páscoa, Ascensão, Festas da Virgem, dos Santos não-mártires e Tempo Pascal. MATISSE cortou os padrões do primeiro estudo em papel amarelo-limão. Esta folhagem decorativa cria um efeito muito apurado e precioso de cor dourada sobre fundo branco. É um esboço inacabado, a primeira tentativa na qual MATISSE buscou a ligação entre a forma imposta, o padrão com cores precisas e sua destinação no espaço da igreja. O segundo estudo, que, como o primeiro, foi conservado por MATISSE1, sem contudo ser utilizado na casula, é uma muda de flores de quatro folhas. As flores são um tema recorrente nos desenhos e guaches de MATISSE e correspondem à tradição das casulas bordadas. O Padre COUTURIER havia lhe dito que não precisava respeitar uma iconografia. Para a maquete definitiva, aplicações amarelas e verdes evocam para a parte da frente uma planta com suas flores e frutos e, para as costas, um cálice e a Eucaristia. Algas floridas que lembram o vitral da Árvore da Vida, situado atrás do altar, decoram as laterais correspondentes aos movimentos dos braços do sacerdote. Esta casula será confeccionada em seda para a consagração da capela, em 25 de junho de 1951, e será a única a estar finalizada nesta data.

As casulas e acessórios foram confeccionados pelas Irmãs Dominicanas de Cépieux, próximo a Lyon, especialistas em vestimentas litúrgicas. O tecido escolhido era a popeline de seda com aspecto semelhante à matéria aveludada do guache. Todas as casulas foram revestidas de uma cor que desempenha um importante papel, pois esse revestimento é visível durante os ofícios. Com efeito a casula, mais larga que o comprimento dos braços do padre, é dobrada sobre os antebraços. A dobradura da casula branca é amarelo-pálido, a da verde e da vermelha é amarela mais atenuada que as padronagens. Um tom malva foi escolhido para a violeta, um branco-rosado para a casula rosa e um branco para a casula preta. Em 1996, as casulas e os acessórios foram reformados por iniciativa da Irmã JACQUES‐MARIE, religiosa Dominicana, amiga de MATISSE, que participou desde o início do projeto da Capela. As cores foram minuciosamente supervisionadas por Lydia DELECTORSKAYA, que verificava se estavam sendo respeitadas de acordo com as amostras cuidadosamente conservadas dos guaches originalmente recortados.

Todos que puderam ver as casulas no atelier de MATISSE ficaram apaixonados por estas que são vestimentas sacerdotais, mas que também fazem parte da criação têxtil que sempre foi uma paixão do pintor. Christian DIOR, numa visita a MATISSE para ver as maquetes das casulas, observou o quanto elas se aproximavam da alta costura. 


•A cor verde é usada nas celebrações do Tempo Comum.


•A cor violeta é usada durante os tempos do Advento e da Quaresma.


•A cor vermelha cor de fogo, do Amor divino é usada no Domingo de Ramos, no Pentecostes e nas festas dos Apóstolos e Mártires.

MATISSE escreveu embaixo de uma fotografia em preto e branco: “Casula vermelha, fundo vermelho-papoula. As partes claras são amarelo-limão”2. Pode-se acrescentar a estas explicações os comentários de Lydia DELECTORSKAYA3: “Enquanto ele a compunha (explicação textual de MATISSE), ele revia em seu espírito uma pequena ilha dos mares quentes, superaquecida pelo sol (daí o vermelho ardente da casula), uma ilha com vegetação seca (juncos e bambus amarelos), coberta de mosquitos (as pequenas cruzes pretas), características que tornam sua vida realmente insustentável, que martirizam.”4


•A cor rosa é usada duas vezes ao ano – nas festas de Gaudete (terceiro domingo do Advento) e de Laetare (terceiro domingo da Quaresma).


•A cor negra é usada em funerais, no Dia de Finados, podendo ser também usada na Sexta-Feira Santa.

MATISSE fez sete composições para a casula preta em papel cortado pintado a guache. Ela é utilizada na Missa de Finados, na Sexta-feira Santa – celebração da morte de Cristo -, e na encomendação de falecidos. Provavelmente ele realizou várias pesquisas, pois era apaixonado pelo equilíbrio das formas brancas sobre fundo preto por sua ligação com as cores do vitral – “superfície de luz e cor”. Esta problemática na base dos grandes desenhos murais pretos sobre fundo branco da capela, “uma parede cheia de desenhos em preto e branco”5, desta vez está invertida: trata-se de desenhos brancos sobre fundo preto, como nas linogravuras de Pasífae. Uma primeira maquete bem despojada contém apenas uma cruz inscrita num V e uma constelação de estrelas feitas com simples retângulos de papel superpostos. Em seguida, MATISSE faz três séries de casulas pretas, sempre com papéis cortados e pintados a guache branco. A primeira série tem por tema principal formas evocando espigas de trigo e letras da palavra “Esperlucat”, da qual ele tira o significado anotando uma reprodução fotográfica: “Preto – Composição nascida do desejo de fazer o trigo  e o encontro de uma palavra provençal que quer dizer descerrar – ver ou perceber –. Refletindo diante de uma casula mortuária, pode-se compreender que o modo mais seguro de se apresentar diante da morte é estar acompanhado por boas ações ( trigo). Esperlucat tirado dos dicionários de sinônimos Larousse6.” Pela morte, os olhos são descerrados. A morte é uma abertura para uma outra vida7. É também o que conta o Padre COUTURIER – “Falamos da casula preta: eu lhe disse que não é uma casula triste, mas uma casula de ressurreição. Ele me respondeu: ‘É o necessário, não é? A morte não é o fim de tudo, é uma porta que se abre”8.

MATISSE compõe uma outra maquete com motivos de algas e de peixes que dançam livremente sobre o fundo preto, dando a impressão de imensidão, onde anota: “Preto e branco. Asas, Palmas acompanham a cruz e os peixes”9. Enfim, as duas partes de maquete escolhidas para serem confeccionadas são decoradas com asas monumentais e dão uma sensação de poder. Seriam o símbolo da pomba do Espírito Santo ou do voo de uma alma após a morte? As letras cortadas de “Esperlucat” envolvem a cruz na frente da casula.


1. Collection Musée Matisse, Nice.
2. Ronchamp-Vence
3. Secrétaire et aide d’atelier.
4. Note manuscrite de Lydia Delectorskaya au sujet de la notice de l’oeuvre dans le catalogue de l’exposition de Washington, 
Matisse Paper CutOuts
5. H Matisse : Ecrits et propos sur l’art, p. 258
6. Ronchamp-Vence
7. Note de Lydia Delectorskaya
8. La chapelle de Vence, journal d’une création p.273
9. Ronchamp-Vence.


Tradução e Adaptação:

Gisèle Pimentel

http://chapellematisse.com/FR/chasubles.php

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CAPELA DO ROSÁRIO (CAPELA MATISSE)

A Capela do Rosário, também conhecida como Capela Matisse, é uma capelinha construída entre 1949 e 1951 em Vence, nos Alpes Marítimos, para o Convento da Ordem de São Domingos, pelo arquiteto Auguste Perret (1874-1954) e decorada por Henri Matisse (1969-1954), tendo sido consagrada em 25 de junho de 1951.

Histórico
Sobre os montes de Vence, pode-se ver o telhado de telhas brancas e azuis, e uma cruz em ferro fundido, de uma modesta capela cuja arquitetura simples quase não se destaca. Esta capela é a obra-prima do pintor Henri Matisse, que a considerava como “a obra-prima de sua existência”, o “resumo de toda a sua vida ativa”. Ele dedicou quatro anos de trabalho exclusivo e assíduo à realização deste projeto que concebeu com sua antiga enfermeira e modelo Monique Bourgeois.
A amizade relativamente pouco conhecida entre Matisse e a jovem deu origem à decoração, feita pelo pintor, da Capela do Rosário. Matisse foi para a região de Vence para se tratar de uma grave doença, e publicou um anúncio procurando por “uma jovem e bela enfermeira” para ajudá-lo a se recuperar, sendo respondido por Monique Bourgeois, jovem enfermeira de 21 anos, amante das artes. Uma forte relação se estabeleceu entre o pintor e sua enfermeira, que lhe serviu de modelo. Durante o período da II Guerra Mundial os amigos foram separados. Quando se reencontraram, a jovem enfermeira havia entrado para a Ordem de São Domingos em 1946 e se tornado Irmã Jacques-Marie. Juntos, eles desenvolveram o projeto de construir uma capela para o Convento dos Dominicanos.
Matisse encheu-se de entusiasmo pelo projeto. Irmã Jacques-Marie lhe serviu de assistente e intermediária junto à comunidade religiosa das Irmãs Dominicanas. Para Matisse, a Capela de Vence representava o culminar de uma busca por concisão e despojamento, onde ele encontra, segundo suas palavras, “uma arte de equilíbrio, de pureza, de tranquilidade”. Muito doente, o artista não pôde participar da inauguração de sua obra, em 1951, e escreveu nessa ocasião:
 “Eu não busquei a beleza, eu busquei a verdade. Eu lhes apresento humildemente a Capela do Rosário das Dominicanas de Vence... Esta obra me exigiu quatro anos de um trabalho exaustivo e assíduo. Ela é o resultado de toda a vida ativa... Eu a considero, apesar de todas as suas imperfeições, uma obra-prima.”
Descrição da Capela
Muito controversa desde a sua conclusão, ela constitui não apenas uma grande obra de Matisse, mas também o testemunho da evolução da arte sacra no Século XX.Exteriormente a arquitetura é bastante despojada, nada parece indicar que se trata de uma capela senão uma imensa cruz em ferro forjado com “apogiaturas” em
folha de ouro realizadas pelo dourador Atilius Arrighi. A capela comporta duas naves convergentes, uma para as religiosas, outra para os leigos.  No interior, sob os vitrais com motivos em tons verdes, amarelos e azuis, os desenhos de Matisse se projetam sobre um fundo de cerâmica branca: São Domingos, a Virgem e a Criança, a Via Sacra. Até mesmo as vestes litúrgicas e ornamentos sacerdotais foram concebidos num espírito “coordenado”. O altar é voltado a 45º em direção ao Leste e para que se possa olhar ao mesmo tempo para as duas naves. É feito de uma pedra local cuja textura e cor parecem evocar um pão. Numa galeria adjacente, esboços e projetos de Matisse relatam as etapas atravessadas pelo artista até a conclusão da obra definitiva.


A Via Sacra
Cada uma das Estações da Via Sacra é acompanhada de uma meditação escolhida por um religioso da Congregação dos Dominicanos. Simplificado ao extremo, o desenho das cenas evoca a humildade e o despojamento. Nela Cristo nos é excepcionalmente mostrado. Para a representação de Cristo, o artista plástico Jean Vincent de Crozals servia de modelo a Matisse. Este escolheu ladrilhos de cerâmica uniformemente brancos a fim de acentuar ao máximo o contraste com o desenho negro – contraste apropriado ao trágico conflito entre vida e morte. Os dois outros sujeitos de decoração realizados sobre os painéis em cerâmica (A Virgem com o Menino e São Domingos) tornaram-se objetos de inúmeras séries de estudos. Sendo o conjunto da frente visualmente limpo, Matisse desenhou a Via Sacra, a Virgem e o grande São Domingos sobre a mesma cerâmica usada como piso. O pintor, em estado de meditação, com os olhos fechados em concentração máxima, estava trepado num estrado, o pincel mergulhado no esmalte e preso na ponta de uma vara de pescar: mas ele só pôde realizar assim, de uma só vez, estes afrescos devido a um longo trabalho preparatório de centenas de rascunhos sobre papel.
“Falando das Estações da Via Sacra, cujos estudos ele recomeçou infinitas vezes, Matisse me contou: ‘É preciso saber de cor estas coisas para que possamos desenhá-las com os olhos fechados.’ ”
— Journal du Père Couturier  de 9 de agosto de 1951.

Os vitrais
Os vitrais, ligando-se diretamente às cerâmicas, constituem a alternativa indispensável ao “equilíbrio expressivo de duas forças, a cor do vitral do lado direito e o preto e branco em todo o lado esquerdo.” O verde, o amarelo e o azul, cores dominantes, são inspiradas por motivos vegetais.

Ao realizar este último trabalho para a Capela do Rosário em Vence, Matisse demonstra o que sempre proclamou ao dizer que a arte excede as “sensações das retinas”: “Eu não trabalho sobre a tela, mas sobre aquele que a vê.” Neste espírito, Matisse concebe e efetua os elementos arquiteturais (oficina branca, porta do confessionário e altar), os vitrais (O Céu sobre a terra, Jerusalém celeste, As Abelhas, O Vitral azul-pálido, A Árvore da vida e vitrais anexos ou um projeto de vitral, “Crucifixão”, não concluído), as cerâmicas (Páginas murais, A Via Sacra, A Virgem com o Menino, São Domingos, O Medalhão da Virgem) e as casulas, o que explica a excelente coordenação e a perfeita harmonia do conjunto.

Os ornamentos
Querendo realizar uma obra total, Matisse concebeu igualmente seis casulas de celebrantes para a Capela: branca, rosa, verde, violeta, vermelha e negra, tendo por base vinte estudos em guache sobre recortes, guardando apenas dois por casula (um para cada lado), num total de doze. Alguns desses documentos preparatórios estão expostos na Capela, bem como no Museu Matisse do Castelo-Cambrésis.

Citações
“Toda arte digna deste nome é religiosa. Seja uma criação feita de linhas, de cores: se esta criação não é religiosa, ela não existe. Se esta criação não é religiosa, trata-se apenas de arte documental, de arte anedótica... Que não são mais arte.”
— Henri Matisse
 “Mas por que você faz essas coisas? Eu concordaria se você fosse crente. Caso contrário, penso que você não tem moralmente direito de fazê-las.”
— Picasso a Matisse, sobre a Capela do Rosário
 “Eu disse a Picasso: ‘Sim, eu faço minhas orações, e você também, e você sabe disso muito bem: quando tudo vai mal, nós nos atiramos na oração para reencontrar o clima de nossa Primeira Comunhão. E você também faz isso.
Ele não negou.

No fundo, Picasso, não é necessário que finjamos ser maldosos. Você é como eu: o que nós buscamos encontrar na arte é o clima da nossa Primeira Comunhão.”
— Resposta de Matisse a Picasso

Bibliografia
•    Sob a direção de Marie-Thérèse Pulvenis de Séligny e de Zia Mirabdolbaghi, « Henri Matisse, a Via Crucis, Capeça do Rosário das Dominicanas de Vence », Catálogo da exposição apresentada em Nice, Museu Matisse (21 de abril-10 de setembro de 2001) e em Vence, no Castelo de Villeneuve (21 de abril-25 de junho de 2001), editado pela Reunião dos Museus Nacionais (2001), Coleção ReConnaître (ISBN 2711842576)
•    « Henri Matisse, La Chapelle de Vence », por Sœur Jacques-Marie, editado por Grégoire Gardette (1992) (ISBN 2909767000)
•    « Collection des gouaches découpées de la chapelle de Vence », por Henri Matisse, Bernard Chauveau Éditeur [1](2005) (ISBN 9782915837049)
•    La Chapelle de Vence, journal d'une création, Henri Matisse, M.-A. Couturier, L.-B.Rayssiguier, edition du Cerf, texto estabelecido e apresentado por Marcel Billot.
Artigos conexos
•    Lista de monumentos históricos dos Alpes-Marítimos
•    Vence
•    Henri Matisse
•    Lista de edifícios tombados como « Patrimônios do Século XX » dos Alpes-Marítimos
Tradução e Adaptação
Gisèle Pimentel

https://fr.m.wikipedia.org/wiki/Chapelle_du_Rosaire_de_Vence

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Hoje, 31 de agosto de 2016


Na sexta-feira passada, 26 de agosto, saí oficialmente da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Consequentemente deixei a Comunhão Anglicana e a Paróquia da Santíssima Trindade - Méier. Foram cinco anos de dedicação. Talvez um dia eu conte os porquês. Agora, só quero dizer que a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, continuam sendo meu norte, meu rumo certo, minha vida.

Voltei à Igreja-Mãe, Católica Apostólica Romana. Foi onde cresci, onde aprendi os fundamentos da fé cristã. Claro, em muitos pontos divirjo dela - como divirjo dos meus pais - mas é onde quero estar. É a casa do meu Pai e da minha Mãe. É a minha história de vida.


Este ícone é um lembrete de que parte da minha história eu vivi no anglicanismo. Nele encontrei irmãos e irmãs incríveis, Conheci pessoas que quero apagar da minha mente, mas conheci pessoas maravilhosas que marcaram e continuarão marcando minha vida. Não larguei essas pessoas, que são pedras vivas da Igreja de Cristo. Larguei a instituição. Este ícone eu carregarei para sempre no meu coração. Ícone que foi escrito pelo Pe. Luiz Coelho, meu amigo, irmão, conselheiro, instrumento de Deus na minha vida e na de todos que o conhecem e amam.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

CONFISSÃO DOS PECADOS - ATO PENITENCIAL SEGUNDO O RITO ANGLICANO


"Misericordioso Deus, confessamos que temos pecado contra Ti, em pensamentos, palavras e ações; não Te amamos de todo o nosso coração, nem a nosso próximo como a nós mesmos. Imploramos a Tua compaixão; esquece o fomos, emenda o que somos, dirige o que seremos, de modo que nos alegremos em Tua vontade e andemos em Teus caminhos. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém."

Livro de Oração Comum (LOC), pg. 28

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Um artigo traduzido em pleno Sábado de Carnaval...

INTERNACIONAL
Sexta-feira 17 de fevereiro de 2012 22 h 12
Igreja
Vaticano é abalado por vazamento de documentos
O escândalo envolvendo o vazamento de documentos confidenciais que abordam disputas políticas internas, a má gestão financeira e o caos administrativo nos corredores do Vaticano mergulha a Santa Sé na tormenta a algumas horas de uma cerimônia em que o Papa Bento XVI deverá acolher 22 novos cardeais.
Levando-se em conta que o Santo Padre diminui o ritmo de suas atividades às vésperas do seu aniversário de 85 anos, a cerimônia de sábado tomou ares de encontro preparatório para um conclave. As mídias italianas estão lotadas de informações de que os cardeais e seus partidários travam uma guerra de territórios em antecipação à eventual eleição de um novo papa, enquanto Bento XVI, por sua vez, tenta se concentrar sobre outros dossiês.
O escândalo apelidado «Vatileaks» estourou no mês passado, depois que cartas assinadas pelo antigo administrador número dois do Vaticano, o Cardeal Vigano, foram tornadas públicas.
Numa de suas cartas, o Cardeal, que revelou a existência de excedentes de custos totalizando milhões de euros no Vaticano, suplica ao Papa para não transferi-lo na sequência destes acontecimentos. O Cardeal Vigano, finalmente, foi demitido de suas funções e nomeado núncio em Washington.
Posteriormente, os meios de comunicação italianos concentraram-se numa investigação sobre quatro padres suspeitos de terem usado contas do Vaticano para lavar dinheiro.  E, enquanto estas informações se tornam crônicas, o principal banqueiro do papa continua sob investigação. Ele teria violado a lei italiana sobre lavagem de dinheiro, tentando transferir dinheiro a partir de duas contas bancárias do Vaticano sem identificar o remetente e o destinatário.
22 novos cardeais
Tudo isso ameaça ser uma sombra pairando sobre a cerimônia do sábado, durante a qual 22 novos príncipes da Igreja serão oficialmente acolhidos no seio do grupo composto exclusivamente por homens que elegerão o sucessor de Bento XVI.
Na sexta-feira, os Cardeais participaram de um dia de reflexão junto ao Papa. O encontro foi animado pelo Arcebispo de Nova York, Timothy Dolan, bastante conhecido por seu senso de humor.
Após ter pedido desculpas por seu pouco domínio da língua italiana, Timothy Dolan declarou aos Cardeais que, no mundo de hoje, os missionários devem transmitir sua fé com amor, alegria e «perdoem-me dizer isto, também com sangue».
Associated Press

Tradução:
Gisèle do Prado
giseledoprado70@gmail.com

Fontes: 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Igrejas Anglicanas



Oriundo das antigas Igrejas celta e saxônica das Ilhas Britânicas, o Anglicanismo encontrou sua identidade própria na Reforma dos Séculos XVI e XVII, quando surgiram a Igreja da Inglaterra, a Igreja da Irlanda e Igreja Episcopal da Escócia. À época da Revolução Americana, uma Igreja Episcopal Independente foi fundada nos Estados Unidos; em seguida, Igrejas Anglicanas ou Episcopais foram fundadas no mundo inteiro sob a influência de movimentos missionários dos séculos XVIII e XIX. Várias delas tornaram-se províncias durante os séculos XIX e XX. Na Ásia do Sul, as Igrejas Unidas, fusões entre Igrejas Anglicanas e Protestantes, juntaram-se igualmente à Comunhão Anglicana, da mesma forma que pequenas Igrejas ao redor do mundo, tais como a Igreja Reformada Episcopal da Espanha e a Igreja Lusitana de Portugal.
As Igrejas Anglicanas e Episcopais mantêm e proclamam a fé Católica (universal) e Apostólica (dos Apóstolos), contida nas Escrituras, interpretada à luz da tradição e da razão. Seguindo os ensinamentos de Jesus Cristo, os anglicanos e os episcopais são engajados na proclamação da Boa Nova do Evangelho a toda a Criação. A fé e o Ministério são expressos: no Book of Common Prayer (Livro de Oração Comum - LOC), recebido e adaptado pelas Igrejas locais; nos serviços de Ordenação; e no Quadrilátero de Chicago-Lambeth, exposto na Conferência Missionária de Chicago em 1886 e adotado pela Conferência de Lambeth em 1888. O Quadrilátero apresenta quatro elementos essenciais da religião cristã:

1. As Santas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, que contêm “todas as coisas necessárias à salvação” e constituem a regra e o padrão da fé.
2. O Credo (Símbolo) dos Apóstolos, Símbolo batismal, e o Credo de Niceia (Niceno-Constantinopolitano), expressão suficiente da fé cristã.
3. Os dois Sacramentos instituídos pelo próprio Jesus Cristo – o Batismo e a Santa Eucaristia -, administrados empregando-se, invariavelmente, as Palavras instituídas por Jesus Cristo e os elementos que Ele ordenou (ou utilizou).
4. O episcopado histórico, adaptado localmente de acordo com os métodos de sua administração às diversas necessidades dos povos e nações chamados por Deus na unidade de Sua Igreja. 

A celebração da Santa Eucaristia (igualmente chamada Santa Comunhão, Santa Ceia ou Missa) é o ponto central do culto anglicano. Por esta oferta de oração e louvores, a vida, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus Cristo tornam-se uma realidade presente através da proclamação da Palavra e da celebração do Sacramento. Os anglicanos e episcopais celebram o Sacramento do Batismo com a água, em nome da Santíssima Trindade, como rito de iniciação na Igreja cristã, e celebram os outros ritos Sacramentais, que são a Crisma ou Confirmação, a Reconciliação ou Confissão, o Matrimônio, a Unção dos Enfermos e a Ordenação Sacerdotal. A Liturgia comum está no coração do Anglicanismo. Os diferentes Livros de Oração Comum são a expressão de uma coerência entre as Igrejas, que buscam estabelecer uma via média em relação às outras tradições cristãs.
As Igrejas da Comunhão Anglicana partilham entre si sentimentos de afeição e lealdade, expressos pelos laços com os “instrumentos de comunhão".

O Arcebispo de Canterbury
Todas essas Igrejas estão em comunhão com a Sé de Canterbury (Kent, Sul da Inglaterra – N.T.). Assim, o Arcebispo de Canterbury, por sua pessoa e seu ministério, é o ponto único de convergência da unidade Anglicana. O Arcebispo convoca a Conferência de Lambeth (Londres, Inglaterra – N.T.), a Assembleia dos primazes e preside o Conselho Consultativo Anglicano, que são os três instrumentos conciliares da comunhão anglicana. Rowan Williams, 104º Arcebispo de Canterbury na linhagem de Santo Agostinho, foi entronizado em fevereiro de 2003.

Conferência de Lambeth
A cada dez anos, aproximadamente, o Arcebispo de Canterbury convida os bispos da Comunhão Anglicana a juntarem-se a ele na oração, no estudo e no discernimento. Na Conferência de Lambeth de 1998, mais de 700 bispos foram acolhidos – dentre eles, pela primeira vez, 11 episcopisas. A mais recente Conferência de Lambeth ocorreu em Canterbury em 2008.

Assembleia dos primazes
Desde 1979, o Arcebispo de Canterbury convida o Arcebispo, o bispo principal ou o presidente (os primazes) de cada uma das 34 províncias e das quatro Igrejas unidas para reuniões, que ocorrem regularmente, para avaliações, orações e reflexões sobre questões teológicas, sociais e internacionais. Estas reuniões acontecem no intervalo de 18 a 24 meses, mais ou menos.

Tradução e Adaptação:
Gisèle Pimentel
gisele.pimentel@gmail.com

Fontes:

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ninguém te condenou?


"Respondeu ela: 'Ninguém, Senhor.' Disse-lhe então Jesus: 'Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.' " (Jo 8, 11)

"Pediram"-me que escrevesse algo sobre esta passagem. Não gosto muito de escrever, confesso, mas não pude negar o pedido. Há dois dias estava no banheiro, me arrumando para deitar, quando de repente "ouvi" no coração: "Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra"(Jo 8, 7b). Na hora não dei muita importância ao pensamento, achei que fosse só mais uma lembrança dentre muitas, de um versículo dentre muitos, coisa normal, sobretudo quando estou caindo de sono. Pensei que fosse aquele estado pré-sono, só isso. Mas não era. A frase continuou martelando minha ideia. "Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra." Eu disse: "Tá, tudo bem." Fiquei esperando que o sono preenchesse totalmente minha cabeça, mas não preencheu. O versículo martelava cada vez mais forte na minha mente. E agora? O pior aconteceu! Perdi o sono!

Ah, não! Agora eu não ia procurar nada na Bíblia! Já eram quase 3h da manhã, eu já estava podre de sono e agora é que vem esse versículo me martelar as idéias? Fala sério! Deitei, luzes apagadas, cobertas por cima - obviamente o ar condicionado estava ligado, pois estamos em pleno verãozão carioca - e fiquei ali, quieta, olhos fechados tentando "apagar". Mas não apagava de jeito nenhum! 

"Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra" e "nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar" não me deixavam em paz. Por que isso? Não sei. Achava que o problema se concentrava mais em Jesus, que Ele queria, naquele momento, revelar algo quanto a Si mesmo. Até pode ser, mas eu ficava pensando: "Por que tem que ser agora, a esta hora da madrugada? Por que não amanhã?" Mas uma coisa me intrigava: a pergunta que Ele fez à mulher: "Ninguém te condenou?"(Jo 8, 10b). Ele não estava ali, não viu o que se passara?

Eu pensava em muitas coisas que nunca havia pensado antes. Talvez fosse o sono, a confusão mental... Por exemplo, daquele grupo Jesus era o único que poderia ter-lhe atirado uma pedra, ou até mesmo uma montanha inteira, pois segundo a fé cristã, Ele é Deus e Santo, sem pecado algum. No entanto, Ele provavelmente deveria ser o único ali que não tinha pedra alguma nas mãos; pois foi justamente quem sugeriu que atirasse uma pedra somente quem não tivesse pecados. 

Vemos que, pelo menos, aqueles fariseus tinham consciência de suas culpas, pois todos saíram sem tacar nenhuma pedra naquela mulher. Há quem pense que Jesus sinalizou ali que também era pecador, mas eu particularmente penso que não é por aí que se deve ir. Se Ele também não lhe atirou pedras, foi porque Ele é a Misericórdia Divina, o Perdão, Aquele que para e olha para nós com compreensão e amor, sabendo que o dia a dia já se encarrega de nos dar pedradas suficientes para sermos lapidados quando batalhamos por uma vida digna, honesta, pautada na verdade, no amor e na paz. E Ele se inclui neste nosso quotidiano, por isso nasceu numa manjedoura e viveu numa carpintaria.

Depois disso, eu finalmente apaguei. Só acordei ontem, mas ainda tinha mais. "Escreva sobre a mulher, sobre a mulher..." Pensei: "Ai ai ai, e agora? Já não bastava ter me atazanado com os versículos e os questionamentos ontem, agora tenho que escrever sobre a mulher? Escrever o quê?" Senti-me de mãos e pés atados, o que eu falaria sobre ela? Tá, ela foi salva e ouviu de Jesus: "Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar"(Jo 8, 11b). Até aí, todo mundo conhece. Mas e daí? Daí que eu parei e pensei: "Nossa, o que significa isso, 'vai e não tornes a pecar'? Será que ela conseguiu não pecar mais? Mas o que Jesus quis dizer com "não tornes a pecar"? Que pecados seriam esses? Será que Jesus era tão ingênuo assim, a ponto de pensar que aquela mulher não iria mais cometer nem um pecadinho sequer na vida? Sei não... Eu acho que Ele podia ser qualquer coisa, menos ingênuo... E agora? O que Ele quis dizer com isso?"

Pois é, quando eu pensava que a questão toda já estava resolvida, vieram estas e outras questões mais. Tenho certeza de que muita gente já empacou neste mesmo ponto. Só posso afirmar duas coisas: Jesus não era e não é ingênuo, e a mulher não foi condenada. O que se pode concluir desta passagem toda? Creio que uma grande confiança que Jesus deposita em cada ser humano que vive na face da Terra. E Ele nos mostra que precisamos ter, além de misericórdia, compaixão e respeito, confiança também na capacidade que cada pessoa tem de "dar a volta por cima", de ir em frente e de tocar sua vida da melhor forma possível. Há muito o que pensar. E hoje, dois dias depois, eu ainda estou com sono por causa daquela madrugada.

Gisèle Pimentel
gisele.pimentel@gmail.com

Imagem:
http://veshamegospel.blogspot.com/2009/11/monologo-da-mulher-adultera.html